[Publicado do "Diário do Minho" de 2004.06.28]

 

Casa Eden (um espaço de beleza)
Irene Marado Moreira

Quem passava pela Rua do Souto (Braga) - espaço privilegiado de Comércio, o mais variado e do maior requinte -, não deixaria de atentar nas lindíssimas montras da Casa Eden e, mais fundo, no interior daquela loja, recheada de peças artísticas, preciosas pelos tecidos como pelos acabamentos.

Eles eram, nas montras, vestidos de noiva, únicos e originais, cujos tecidos vinham dos Armazéns António Rua, L.ª e eram primorosamente, amorosamente confeccionados pela extraordinária modista D. Arlinda Vieira, a D. Arlindinha, excelsa, afectuosa amiga desde os meus tempos de jovem assistente social familiar na Casa do Povo de Pico de Regalados.
Eles eram colchas de renda de "uma ou duas agulhas", saídas de mãos delicadas de mulheres que, no rendilhado como no bordado, punham toda a sua sensibilidade feminina e, quem sabe?, os sonhos de beleza com que enfeitavam as suas vidas simples, ricas de afectos, de maternais solicitudes.

Outras vezes, surgiam nas montras as não menos preciosas "colchas de puxados", nos seus clássicos e incomparáveis desenhos antigos, fabricadas pacientemente nos rústicos teares de "4 apianhas", e onde predominava, rodeada de pombinhas, flores e cruzes, a "Coroa de Rei" que era, exactamente, a heráldica de algum dos nossos antepassados, homenagem delicada de um povo aos seus Reis. Ou ainda as finas colchas e toalhas de adamascado, famosas peças do Colégio da Regeneração.

Relembro mais - com que emoção de belo e de "falar antigo" os relembro - os "Lenços de Namorados", de que a Casa Eden foi pioneira, enfeitando as montras como ramalhetes de flores campestres. Lenços recriados no Centro de Educação Familiar da Obra das Mães, em Vila Verde, sob a orientação da artista que era a Assistente Social Familiar Susana Lagrifa, assessorada por outra singela mas real artista, D. Maria do Céu. Lenços cuja beleza e desenhos tradicionais foram conservados e enriquecidos pela jovem Maria da Conceição Pinheiro, a alma da Associação "Aliança Artesanal Terra Verde", marca deslumbrante de riqueza artesanal, de que pode orgulhar-se Vila Verde e as suas gentes, a Câmara Municipal e o seu Presidente, obreiro incansável da sua projecção em Portugal e para lá das fronteiras.

Vêm ainda os tradicionalíssimos bordados de todo o nosso artesanato nortenho: dos crivos de S. Miguel da Carreira aos bordados de Guimarães, a preto e vermelho ou de uma só cor; os coloridos bordados de Viana; os antiquíssimos, clássicos, diria, aristocráticos bordados de Tibaldinho; os bordados a ponto de cruz, a preto e vermelho, alguns criados numa espécie de "baixo-relevo", marcando, sobre o linho branco, geométricas figuras exóticas de animais, de folhas ou flores, numa harmoniosa repetição dos motivos.

E o que dizer dos primorosos bordados da Lixa, alguns de original estilo "grego", em tons fortes de azul e vermelho?
E os "bilros" de Vila do Conde, rendadas espumas de um mar apaixonado pelas infindas areias de praias sedentas de afago?
A Casa Eden era tudo isto...

Era, mas já não é...Vão ficando na doce memória dos "tempos idos", as lojas únicas, verdadeiras "arcas de tesouros", que a fúria de um falso, feio e uniforme progresso acabou por derrubar.
Onde estão: a Paramentaria Amorim, especializada em artefactos litúrgicos, estofos, cortinados e toda a infinda cadeia de decoração?!
Onde a Livraria Editora Pax, empresa marcante pela exigência das suas vastíssimas colecções de arte livreira, pelo valioso contributo editorial de escritores de renome ou novéis escritores, nascidos de um real mecenato, que relevo orgulhosamente?!
E a Casa Esperança, e a encantadora meninice de uma Nina?!...
A fúria devastadora passou e levou...

Mas não foi certamente pela "falência" destas Casas fortes, alicerçadas no valor do trabalho e na coragem dos seus Gerentes e colaboradores. Estou certa, foi antes, como na Livraria Editora Pax, a voracidade do "ter" sobre o "ser" que moveu sócios e decretou lucros vultuosos de vendas oportunísticas, deixando à mercê, como sempre, os mais fracos, e empobrecendo a cidade.
Hoje, na Rua do Souto, como por todo o burgo, pouco mais há do que estereotipadas lojas de "pronto a vestir" (ou a despir...), iguais umas às outras, de inspiração metrificada, que nem sequer possui um "tic" de excêntrico, de novidade!

A Casa Eden, fundada em 2 de Abril de 1938, sob a Firma Gustavo Neves e Magalhães (constituída pelos consórcios Gustavo Severino das Neves Vieira e António Pereira de Magalhães), seria instituída, em Maio de 1986, como firma Gustavo e Neves, que integrava cinco irmãos, entre estes o sobrinho e afilhado de Gustavo Neves que, em 1986, viria a formar com seu tio uma última empresa, Gustavo e Neves que administraram em co-gerência. Em 1991, com o falecimento do sócio fundador, foi a gerência assumida por Nuno Neves.

Assinalo, como recordação viva, os concursos de montras da Época Pascal, dos quais a Casa Eden ganhou um 2º prémio, montras de magnífica inspiração, sendo que a Cruz de Páscoa era delicadamente ornada com "silvinhas" de mimosas, minúsculas flores talhadas em organdi. Rememoro ainda um concurso de montras de Natal, onde foi de enorme sucesso o espaço transmudado em "oficina da Sagrada Família", com S. José e Jesus aplainando tábuas numa autêntica "banca de carpinteiro".

Pena que não tivessem ficado fotografados ou filmados tais engenhos artísticos.
Mas eu tinha de repassar, nas memórias deste singelo trabalho, aquele que foi não só o Fundador, mas a "Alma" desta Casa Comercial, verdadeiramente única: a figura aristocrática, no porte como no trato, do Senhor Gustavo Neves. Ele era o paradigma do Comerciante, estimado e respeitável, delicado e atento, conhecedor profundo das peças artísticas que constituíam o recheio da sua Casa, onde a noiva mais exigente encontraria todo o seu bragal.

Relembro-o, saudosamente, na discreta penumbra de uma Casa acolhedora, nunca atrás de um balcão, mas sempre pronto, atencioso e afável como o mais nobre anfitrião.
Talvez como homenagem a seu Tio-avô, este Homem inesquecível, e a esta Casa inigualável de artes femininas, a jovem Mafalda Neves instalou, no "Shopping" de Sta. Tecla, uma requintada, preciosa loja de artigos de casa: "Mafalda Neves, Decorações". 

A beleza recria-se. A arte é o mais belo labor do Homem.

 

Associada n.º 359 da ASPA

Fotografia da Casa Eden (R. do Souto - Braga)
Alçado da Casa Eden (R. do Souto - Braga)