[Publicado do "Diário do Minho" de 2004.06.14]

 

Le stade c'est moi?
Ademar Ferreira dos Santos

1. Bilbau (cidade horrível) tem o Museu Guggenheim (hélas, Francisco!). Verona tem a Arena, que antes servia cristãos às feras e agora serve Verdi aos turistas. Colónia, a catedral eternamente reconstruída. Vicenza, o Teatro Olímpico de todas as máscaras. Cremona, a pequena Cremona, o Museu Stradivarius. Veneza tem-se a si própria, mais o Lido e a excelentíssima memória do olhar de Visconti. Córdoba tem os bairros labirínticos que escorrem da Mesquita cristianizada. Até a modesta Málaga, de há um ano a esta parte, tem o Museu Picasso, que guarda, de resto, a parte menos interessante da obra do pintor. Cada cidade, é mesmo assim, tem o que pode ou quis. Ou merece. Braga, cidade bimilenária, tem agora o Estádio Souto Moura. Talvez dê jeito ter um estádio de futebol assinado pelo irmão do Procurador da República. Eu até já lá estive numa noite invernosa a ver um Portugal-Itália de infausta memória e apreciei a obra e o cenário (o jogo, de resto, favorecia as pulsões panorâmicas). Não digo que o monumento não seja bibliografável. Mas, Deus vosso, e as crianças? Que cidade e que símbolos lhes legaremos? Uma cidade de grandes superfícies comerciais (que hoje, na Europa, só os pacóvios consentem) e estádios de futebol? Viveremos apenas do orgulho e do proveito disto? É o que me dói quando penso na obra, que não tem culpa nenhuma de ter nascido no tempo e no contexto errados. 

2. Dói-me a lógica do desperdício. Dói-me o síndrome macacóide. Dói-me o pretenso cosmopolitismo das obras de estalo. Dói-me o fácil, o efémero, o balofo, a grandiloquência do betão, que nos desarma perante o que perdura: o investimento na felicidade quotidiana das pessoas. Um estádio é apenas um estádio, meus senhores! Um circo. Um cenário. Por mais sedutor que seja aos olhos dos que tentam ver para além da aparência das formas. É grandioso na ousadia do traço? É imponente? Desperta o interesse dos estudantes de arquitectura e dos turistas? Tudo bem. Mas, Deus vosso, e as crianças, as nossas crianças? Já lhes demos tudo aquilo de que precisam para ser e crescer felizes? Escolas, creches e jardins de infância acolhedores? Espaços verdes e de lazer? Infraestruturas modernas e acessíveis para a prática de todos os desportos? Uma boa rede de transportes escolares? ATLs que todos possam frequentar? O que falta fazer pelas nossas crianças?...A ambição dos bracarenses, nesta matéria, já está satisfeita e podemos agora, como que embriagados pelo néon das manchetes fantasistas, cobiçar o delírio do luxo e começar a construir estádios sobre estádios, como se o futebol fosse o último e definitivo denominador comum do nosso contentamento colectivo? Não haverá mais vida para além de Figo, Pauleta e Companhia?... 

3. Foram trinta, quarenta, cinquenta, sessenta, setenta, oitenta, noventa milhões de euros? Teremos a Câmara endividada por... dez, vinte, trinta anos? Custou o triplo do orçamentado? Não se sabe ainda muito bem quem, directa ou indirectamente, pagará nas próximas décadas a manutenção da coisa e quanto isso custará? Parece que ninguém se importa... O que conta é que Braga ficará para sempre na breve e pequena história do Euro 2004 e terá doravante uma imponência arquitectónica, encaixada numa pedreira, para surpreender e impressionar os forasteiros. A que maior glória poderiam os bracarenses aspirar? Sem ela, que seria do orgulho da cidade e da auto-estima dos nativos?

4. Eu gosto de futebol, aprecio a boa arquitectura e abomino a demagogia. Nada me move, por isso, contra o jogo ou contra a arte. Mas sou bracarense de há muitas gerações e tenho filhos que também o são. Um deles, o Francisco, até joga futebol nas escolinhas do Sporting Clube de Braga. E duas vezes por semana treina num campo de terra batida, que a chuva converte amiúde num pantanal, porque, pelos vistos, numa cidade que teve recursos para construir um dos mais modernos e inovadores estádios da Europa, não há um campo relvado que os miúdos que têm a paixão pelo futebol e que o praticam regularmente possam utilizar, mesmo quando enquadrados por técnicos do principal clube de futebol da cidade. Isto, para mim configura o absurdo e resume luminosamente tudo o que antes quis significar. Para que conste.




Sócio da ASPA, vice-presidente da Mesa da Assembleia Geral