[Publicado do "Diário do Minho" de 2004.05.17]

 

Braga e o Santuário de Nossa Senhora do Pilar (Póvoa de Lanhoso)
em "The Lusitanien", uma revista inglesa editada no Porto em 1844/1845

Eduardo Pires de Oliveira

Quem tem o cuidado de prestar alguma atenção ao que vai sendo editado no nosso país, por vezes tem a sorte de ser surpreendido com a publicação de textos antigos que para o comum dos mortais eram totalmente desconhecidos. Poderão ter um maior ou menor interesse; mas, pelo menos, trazem sempre a alegria de saber que alguém se interessou pela nossa cidade ou pela nossa região.
João Paulo Ascenso Pereira publicou em 2001 o livro Temas, Mitos e Imagens de Portugal numa Revista Inglesa do Porto. The Lusitanien (1844-1845). (Lisboa, Fundação Calouste Gulbenkian/Ministério da Ciência e da Tecnologia, 2001).

Segundo este autor, a revista 
"... servia de veículo de divulgação da cultura portuguesa entre os ingleses, os editores não pretenderam circunscrever o seu público aos cidadãos britânicos, desejando torná-la acessível à camada culta portuense, transformando-a num meio de aproximação entre ambas as comunidades e exortando-as a uma colaboração conjunta num projecto de natureza intercultural..." (p. XVII)

Não esqueçamos que estamos na cidade do vinho do Porto, nem que os românticos portugueses fizeram uma fortíssima aproximação com a cultura inglesa, tendo mesmo lá redigido a primeira versão da constituição portuguesa.
Segundo Ascenso Pereira, o principal objectivo da revista era a "divulgação do nosso país e do seu património cultural", sobretudo dos principais centros urbanos, embora também desse alguma atenção à periferia. Vejamos um naco da sua prosa:
"Raras são, porém, as localidades em que os monumentos e vestígios arqueológicos se encontram devidamente preservados. Excepção à regra seria então a cidade de Braga, cujo património merece por parte de K. T. L., autor do relato "Impressions of Travel in the Minho", uma apreciação favorável. Tratava-se de uma cidade cristã, sede do primado de toda a Espanha, onde tudo se encontrava impregnado de associações com a época romana, da qual a urbe teria retido o seu aspecto imponente. Neste artigo atribui-se particular destaque ao carácter simétrico e sóbrio de boa parte dos edifícios públicos, designadamente o Paço Episcopal, o Hospital de São Marcos, as Igrejas de Santa Cruz e do Pópulo e as numerosas fontes existentes na cidade, todos eles notáveis pela sua grandiosidade e bom gosto. Merecedora de uma especial atenção por parte do autor é a Sé daquela cidade, cujo interior é pormenorizadamente descrito."

Temos fortes dúvidas que o património construído bracarense estivesse em 1844 tão bem preservado quanto esta revista apregoava. Braga estava então em plena pré-Maria da Fonte, a cidade encontrava-se já em polvorosa, embora ainda não tivesse começado a chegar dinheiro a jorros vindo do Brasil - o que só aconteceria na década seguinte - , pelo que não havia capacidade económica, nem tempo, para começar a fazer uma série de destruições, atitude que ainda hoje se mantém, infelizmente. Leia-se, por exemplo, o que passadas cerca de três décadas escreveu o presidente da Associação dos Arquitectos Civis e Arqueólogos Portugueses, Joaquim Narciso Possidónio da Silva, sobre a forma incrível como Sé estava a ser tratada.
Mas como este texto já vai longo, dá-lo-emos a conhecer noutro momento




Associado n.º 7 da ASPA

[Braga]

Braga é uma cidade nobre, majestosamente plantada no vale mais aprazível da região. Cumes de altivas montanhas testemunham a sua beleza e protegem o seu repouso. Também há nela algo dos tempos antigos, mas algo de romano. É uma cidade muito cristã [sic], o arcebispado do Primaz de toda a Espanha, mas parece ainda conservar, com as suas antiguidades e associações, muito do aspecto imponente que os romanos imprimiam a tudo o que lhes pertencia. Parece um poema cristão escrito com o espírito e inspiração dos clássicos.

A arquitectura dos seus edifícios públicos é simétrica e sóbria, não contaminada por aquelas frivolidades de meretriz, tão comuns mais próximo da terra natal. Pode parecer um elogio muito pálido a fazer a um edifício, dizer que é simétrico - há simetria numa pocilga ou num casebre irlandês -, mas é algo de muito gratificante para um olhar não acostumado a encontrar essa simetria. O Palácio do Arcebispado, o Hospital de São Marcos, as igrejas de Santa Cruz e do Pópulo, o convento do Pópulo (agora, infelizmente, a servir de caserna) e as fontes, com especial relevo para a incrustada nas traseiras do palácio, são construções que demonstram muita grandeza de pensamento e pureza de gosto.

A Sé, com as suas três naves e o seu coro de ébano, fica infelizmente espartilhada por caminhos sujos e esmagada por lojas, não podendo revelar-se em todas as suas antigas glórias e rendilhados. Os seus profundos e majestosos órgãos têm fama. [...] Grande é a riqueza da sua igreja em ornamentos sacerdotais e episcopais, mas a riqueza ainda maior reside nas suas relíquias ["The Lusitanian". Porto, 6, p. 331].


O castelo de Póvoa de Lanhoso

O seu ponto mais alto foi coroado com ruínas, que, após pesquisa, descobrimos serem as do antigo castelo da Póvoa de Lanhoso, ao qual D. Afonso Henriques, o primeiro rei de Portugal, confinou durante tanto tempo a D. Teresa, sua mãe. [...]
Do castelo, para nosso desapontamento, pouco mais resta do que a torre de menagem, mas uma habitante da Póvoa de Lanhoso, que nos acompanhava, relatou-nos que, cerca de vinte anos antes da nossa visita, as paredes, então inteiras, foram demolidas, com aquele desrespeito pelos monumentos históricos tão comum em Portugal, para que, com esses materiais, fosse erigida a capela de Nossa Senhora do Pilar, a qual ocupa agora parte do espaço. Deve ter sido um local de grande força antes da invenção da artilharia e estava admiravelmente localizado, dado que a rocha sobre a qual assenta tem uma enorme extensão de vistas em todas as direcções [C. [W. H. G. Kingston], "Scenes and Sketches in Portugal, nº 1". "The Lusitanian". Porto, 1, Out. 1844, p. 23].