[Publicado do "Diário do Minho" de 2004.05.03]

 

Grandes "descobertas arqueológicas" em Braga
J. J. Rigaud de Sousa

Braga, como muitas outras localidades ou até como todas, é no que diz respeito à Arte uma autêntica caixinha de surpresas fazendo lembrar um prestidigitador a tirar coelhos do chapéu que neste caso não serão, bem entendido, coelhos mas os mais curiosos enganos.

Estou a lembrar-me de um certo guia da Cidade onde é apresentado como exemplo de um miliário romano um marco mandado lavrar pelo Arcebispo de Braga, D. Rodrigo de Moura Teles, em 1725, e o que é pior é que o autor bebeu essa informação numa publicação oficial sobre os imóveis classificados. Outro caso interessante é de ter aparecido à venda na Cidade um postal onde se via um mosteiro indicado como sendo o Mosteiro de Tibães, no concelho de Amares, e era o Mosteiro de Tibães no concelho de Braga. Era só um pequeno lapso... sem comentários. Outro lapso curioso foi o que vi num jornal, que já não recordo qual, onde em relação à freguesia de S. Miguel de Frossos é citado o lugar das Chousas quando o que aí existe é a Quinta da Chousa, junto do cruzeiro do Senhor do Bonfim.

Mais recente ainda é um livrinho intitulado Recordar Braga da autoria do Prof. Álvaro de Almeida Carvalho, prefaciado pelo presidente da Região de Turismo Verde Minho e distribuído no Posto de Turismo de Braga, onde vamos aprender (!) algumas coisas bem curiosas até então ignoradas por todos os que se têm ocupado de Braga. Citemos:

Numa das fotografias que formam essa interessante e valiosa obra vemos uma Panorâmica vista da Região de Turismo Verde Minho quando eu julgaria, na minha ignorância, que seria parte dos reconstruídos edifícios medievais do hoje Arquivo Distrital e a parte de cima da torre do Pópulo. Mais adiante vê-se um Jardim efusivo e amoroso da Cidade dos Arcebispos. Tanta ternura em relação a uma pequena vista do Jardim de Sta. Bárbara é pelo menos... amorosa. Depois temos uma Panorâmica vista da Av. Central: Fontes - Flores - Plantas - Monumentos. Isto é um português retorcido onde as fontes são repuxos e as flores são plantas, mas é certo que nem todas as plantas dão flores.

Mas agora vem a maior descoberta com a Braga Histórica - Arcos Mediavais (sic). Tão grande descoberta é de admirar pois que nenhum dos investigadores que se ocuparam de Braga, e bem sabedores os houve e há, não tenham dado por ela; e também é de registar a ortografia Mediavais que todos por cá no nosso País grafavam erradamente medievais. Está-se sempre a aprender. E nós a julgarmos que esses arcos da R. do Castelo eram do início do século XX, ou será que não sabíamos que a Idade Média se estendeu até esse século?

Depois o Convento que todos julgavam ser do Pópulo afinal é do Pópulum (lembro que próximo há uma discoteca com esse nome mas até aqui julgava que uma discoteca e um convento eram coisas bem diferentes). Noutra fotografia, aquela que se julgava ser a Capela dos Coimbras faz parte afinal da Igreja de S. João do Souto! É certo que a Igreja está na imagem e a seu lado a Capela só que, como notei, até agora julgava-se que eram dois monumentos e afinal são só um!

E continuamos a aprender. O que julgávamos ser a portaria do antigo seminário de Braga (sito no Campo da Vinha, sensivelmente onde agora estão uma loja de ferragens, outra de fazendas e uma padaria), transferida para o Largo de Santiago após 1884, data da fundação, neste local, do novo Seminário Conciliar, é afinal a Igreja de S. Paulo. A Panorâmica da Universidade do Minho é magnífica pois é tão longínqua que mal se percebe. 
Que me perdoe o autor a minha ignorância e eu lhe agradeço todas as informações que ele prodigamente me serviu. Assim fiquei muitíssimo mais culto.




O ignorante associado n.º 342 da ASPA