[Publicado do "Diário do Minho" de 2004.02.23]

 

De auto-estrada até... Gouvim?!
Paulo Torres Bento

Primeiro chamavam-lhe IC1, recentemente promoveram-na a A28, ao que parece porque se preparam para impor portagens numa via que foi inicialmente apresentada como medida compensatória para um Alto-Minho atrasado e deprimido.

Com ou sem portagens, certo é que antes de terminar esta primeira década do século XXI, ficaremos com duas auto-estradas entre o Porto e a Galiza desenvolvendo-se quase em paralelo, uma mais pelo interior (A3), outra bordejando o litoral (IC1/A28), a primeira conectando funcionalmente em Valença com a rede de autovias espanhola e a segunda terminando em... Gouvim, lugar da freguesia de Gondarém (V. N. Cerveira), em plena EN13!

Não, não é engano, está mesmo previsto que uma via rodoviária com quatro (cinco, em algumas zonas) faixas de rodagem, preparada para altas velocidades e com um tráfego diário estimado de 15 000 a 20 000 veículos/dia, tenha o seu término numa simples estrada nacional com semáforos em funcionamento e rotundas em construção.

Faz isto algum sentido? Não, concerteza, para o comum dos automobilistas, seus futuros utilizadores, postos perante uma tal asneira rodoviária; menos ainda para os moradores de três aldeias do concelho de Caminha (Vilar de Mouros, Argela e Lanhelas) que correm o sério risco de serem esventradas por um sinuoso e absurdo traçado projectado, ou permitido, por decisores nacionais incompetentes e arrogantes, interesses económicos vorazes e distantes e responsáveis locais indiferentes e sem cultura democrática.

O autêntico crime social e ambiental anunciado para os vales dos rios Coura e Minho (Sítio da Rede Natura 2000 e Zona de Protecção Especial para Aves) é de tal forma evidente que os seus contornos foram recentemente reconhecidos pelos técnicos dos institutos públicos portugueses que constituem a Comissão de Avaliação do Impacte Ambiental. Ao reprovarem em Dezembro último o projecto de execução do troço Riba de Âncora-Caminha do IC1/A28 apresentado pela empresa concessionária, suportados num vasto conjunto de razões que vêm de encontro aos argumentos há muito defendidos pelas populações, autarcas das freguesias afectadas e ambientalistas, a reformulação do projecto então imposta ao consórcio EUROSCUT (eufemismo local para a espanhola FERROVIAL), veio dar uma nova alma a um movimento cívico, certamente determinado, mas igualmente desgastado por dois anos de uma luta desigual.

O problema é que a arrogância de quem decide, a voracidade de quem lucra e a insensibilidade de quem deveria estar na primeira linha da defesa dos munícipes, não desapareceram com este importante revés e, longe de estarem derrotadas, preparam-se à maneira do Leopardo de Lampedusa para "mudar alguma coisa para que tudo fique na mesma". Não nos resta assim outro caminho senão estarmos atentos, redobrando os esforços de contestação democrática, não cedendo perante as ameaças; contrariando as pretensas evidências técnicas, produzindo o nosso próprio conhecimento social e científico (de que foi um exemplo, a proposta de construção de pequenos túneis nos montes da Gávea e Góis, da autoria do Prof. Alexandre Leite, da Universidade do Porto); apelando à contínua solidariedade dos muitos amigos que nos vêm acompanhando desde o início deste percurso (a publicação deste artigo, neste espaço, é um bom exemplo disso mesmo); acreditando, finalmente, que os representantes do único reduto técnico do interesse público nacional em todo este processo, vão resistir aos interesses poderosos e ser coerentes até ao fim.

Quem sabe se, assim, a auto-estrada não se fica por... Gouvim?




Membro da Comissão de Moradores de Vilar de Mouros