[Publicado do "Diário do Minho" de 2003.12.29]

 

O novo estádio de Braga, "La Pedrera" ou "o carreirinho de formigas"
Eduardo Pires de Oliveira

Há dias, numa conversa com um "velho" Amigo - o Dr. Miguel Bandeira - perguntava ele se não seria correcto atribuir um "nome" ao novo estádio de futebol de Braga. E, de imediato, propunha um nome: "A pedreira".

Sem querer comparar a obra de dois dos maiores arquitectos dos tempos modernos, Gaudí e Eduardo Souto Moura, um já com obra consagrada a merecer honras de comemorações centenárias, outro, felizmente, com muita obra ainda por fazer, ambas já mais do que internacionalmente consagradas, não posso deixar de apoiar aquela ideia. Poder-se-á dizer que as razões são muito diversas. Efectivamente, não sei porque motivo aquela obra maior de Gaudí recebeu este estranho nome. Quanto à de Braga, as razões são mais do que visíveis.

Gosto do fabuloso edifício de "La Pedrera"? Claro que sim. E, a verdade, é que no que toca ao edifício bracarense, é impossível deixar de, pelo menos, ver que se está perante uma obra também radicalmente diferente das que se levantaram no seu tempo. Fui no domingo passado, como muitos outros bracarenses, ver a obra que tem mobilizado paixões. Já há muito tempo a conhecia no papel, já a tinha vislumbrado ao longe, mas nunca um pouco mais de perto. Por muito que o leitor se admire, não irei agora falar dela enquanto peça de arquitectura, embora não possa deixar de inquestionavelmente estar ao lado daqueles que dizem que era mais importante para a cidade, para a região e para o país, que se tivesse construído um novo hospital em vez deste novo estádio. E isto, não porque vá contra o desporto, mas porque a cidade já é possuidora de um estádio emblemático, um dos mais belos do país, um estádio de que não se sabe qual o futuro que poderá vir a (não?) ter.

Por isso, vou deixar de lado o percurso profissional de Souto Moura em relação a Braga, as obras emblemáticas mas não compreendidas e, de certo modo, destruídas, em que se salienta um dos raros prémios de arquitectura europeia que Portugal recebeu no século XX. Refiro-me, naturalmente, ao edifício do Mercado do Carandá, na sua fase inicial, fase que, aliás, não foi integralmente concluída. E, porque conheço o processo, não poderei deixar de dizer que o arquitecto tentou tudo por tudo para que a sua obra fosse integralmente avante. Só o não foi, porque a câmara que agora lhe dá todas as condições então o não quis, o não soube compreender.

Repito: subi ao alto do Monte Castro e fui ver a nova obra que parece mobilizar a cidade. Não há dúvida que é espectacular, seja pela implantação, seja pelo arrojo, seja pelo seu ineditismo. Também não vou aqui entrar agora na polémica sobre os seus custos, embora ache que eles deveriam ter sido dados a conhecer à cidade antes da adjudicação dos trabalhos, custos que deveriam ter sido devidamente equacionados sobre as necessidades reais da cidade, antes de se avançar para a sua efectivação. Na subida até ao topo do monte, não pude deixar de relembrar o nome de Carlos Teixeira, o professor do Liceu Sá de Miranda que ali fez escavações arqueológicas na primeira metade da década de 1930 e que alertou para a sua importância no contexto do conhecimento da cidade romana de Bracara Augusta. Durante a subida não pude deixar de também reconhecer os dois circuitos de muralha que protegem do lado nascente o povoado que aqui existiu, estruturas que o pisoteio de todos quantos demandam o ponto mais elevado está a destruir.

Lembrei-me, então, que num determinado momento da obra do novo estádio, os jornais bracarenses deram a conhecer que no removimento de terras que teve de ser feito, surgiram vestígios de edificações da Idade do Ferro, vestígios extremamente importantes porque incluíam raríssimos pavimentos de em barro batido e, caso ainda mais invulgar, ostentando uma certa decoração. Tanto quanto sei, esses vestígios foram recolhidos e guardados num museu para virem a ser mais tarde estudados. Tanto quanto sei, não se equacionou a hipótese de se manter estas ruínas "in loco", a exemplo do que virá a acontecer com o edifício "termal" que surgiu durante as obras de construção da nova estação da CP. Mas, mais importante, não se equacionou, também, a hipótese de enquadrar o novo estádio com o velho povoado da Idade do Ferro existente no Monte Castro, monumento classificado como Imóvel de Interesse Público há mais de 20 anos.

E porque é que não houve essa ideia? E porque é que se não desviaram alguns dos milhões de contos, de alguns dos milhões de euros gastos na construção do estádio, em escavações arqueológicas do Monte Castro, que a sua construção fez parcialmente desaparecer? E porque é que não se aproveitou o momento para se mostrar aos bracarenses que a construção do futuro se faz também com o respeito pelo passado, que é perfeitamente possível a harmonia entre estes dois momentos tão distantes entre si e tão díspares? E porque é que se não aproveita o momento para mostrar aos bracarenses e a todos quantos nos visitam que Braga é uma cidade que quer crescer harmoniosamente, que quer enquadrar o seu brilhante passado com um edifício voltado ao futuro? 




Associado n.º 7 da ASPA

PS: Na sua edição do passado sábado, o jornal "Público" informava que cerca de 15.000 artigos - brinquedos, mas também produtos considerados perigosos, como ponteiros laser e electrodomésticos - ... tinham sido apreendidos até à data. Poucos lugares poderá haver mais perigosos do que os precipícios existentes no alto do Monte Castro, precipícios com cerca de 10, 20 ou mais metros em que o granito foi cortado a pique. São esses os lugares que são continuamente procurados pelos bracarenses para admirar o novo estádio. E não há ali a menor vedação.

No estádio - e muito bem - tomaram-se todos os cuidados para evitar acidentes, mesmo de pequena monta. Nas imediações do estádio, não se tomaram nenhuns cuidados para evitar os mais graves acidentes. Como dizia alguém que lá estava a ver "se no dia da inauguração não se puser aqui uma barreira, virá aqui tanta gente, haverá tanto empurrão, que os de trás vão fazer cair no precipício os que estão à frente, sem sequer darem conta do que estão a fazer".

E a verdade é que é difícil compreender porque razão ainda não foram tomadas nenhumas precauções para evitar um sítio tão incrivelmente perigoso. A não ser que se esteja à espera de que algo de muito grave aconteça para, depois, se tomarem as devidas providências.


O novo estádio de Braga