[Publicado do "Diário do Minho" de 2003.12.15]

 

Novu Stadium
Miguel Bandeira

À medida que nos aproximamos da hora do fogo de artifício sempre vem ao de cima aquela tendência habitual que temos para tomarmo-nos benevolentes com as pequenas misérias quotidianas, esquecermos as agruras do dia-a-dia, tolerarmo-nos uns aos outros, estendendo as mãos com a ilusão de que ainda poderemos constituir uma comunidade com laços em comum. Assim irá brevemente acontecer, quando rendidos ao deslumbramento do novo estádio, enebriados pelo aparato das surpresas prometidas para a noite da sua inauguração, esqueceremos o endividamento abismal e o adiamento de prioridades de que ficámos reféns para os próximos anos. Nessa mesma noite uma maioria admitirá à boca cheia, orgulhosamente, que Braga é mais do que uma terceira cidade e que o nosso primeiro Engenheiro, profeta irrevogável desse advento, poderá finalmente ser entronizado como o desígnio de uma providência celestial.

O novo estádio vai pois, seguramente, nos perseguir nos próximos tempos, como fonte inesgotável da imagem de marca da cidade, Ou não fosse ele o mais recente ícone de um grande arquitecto, e, por isso, recomendavelmente inquestionável. Ele é o destino das peregrinações domingueiras, capa de roteiros para os novos romeiros, motivo para isqueiros e porta-chaves, nome para cafés e restaurantes, quiçá tema de decoração de cobertura de bolos. As crianças vão desenhá-lo na escolas, os calendários arranjarão uma perspectiva do estádio para cada mês do ano. E depois lá surgirá aquele concurso da rádio, que a troco de um fim de semana na Madeira, perguntará aos ouvintes: - Quantas cadeiras tem a bancada poente?!.

Pretendido como uma nova "catedral", acolherá cerimoniosamente diversos. baptismos. Isto é, exibirá uma agenda carregada de, primeiros jogos iniciáticos: o primeiro das "escolinhas"; o primeiro, e último, do estaleiro vs fiscalidade municipal; o primeiro do Sporting Clube de Braga; o primeiro da selecção... e tantos outros, simétricos, que serão concomitantemente anunciados com as despedidas do "velhinho" 1.º de Maio.

Será pois, neste verdadeiro e simbólico megaritual de passagem, ainda por cima reforçado pelo final do ano, que a cidade irá viver os próximos meses na vã ilusão de que algo de profundo está a mudar, ou com a tonta quimera de que a cidade se renovou.

E contudo, a cidade já não é a mesma. Assim o afiançou há dias o nosso Arcebispo D. Jorge, ao confirmar desassombrada e corajosamente que Braga já não é uma cidade católica!

Pudera, quando os arautos da pólis bracarense afirmam que o estádio será o novo "Bom Jesus Urbano", quando o número de recintos futebol se sobrepôs ao das igrejas e capelas, e quando os bracarenses não hesitam entre a bola e a missa, não só, é um facto, mas também por isso, a fisionomia da "Roma portuguesa" cede então lugar ao ideal de uma "Olímpia" regional caracterizada pelas suas monumentais arenas.

Braga, pode pois, muito justamente, passar agora a ser designada como a capital dos estádios, já que, se enumerarmos os principais empenhamentos patrimoniais do último século e daquele que agora começa, não podemos deixar de apontar os dois recintos consagrados ao futebol, como sendo o exemplo do que mais valioso temos para oferecer durante este período no capítulo do património arquitectónico.

Consolidada esta nova vocação estratégica, arrancamos com a bimilenar certeza de que os pagãos voltaram transfigurados para levar a melhor, ainda para mais desagravados de um Paulo Orósio para os contrariar. Dai que, em nossa opinião, não faça qualquer sentido atribuir o nome de um santo ao novo estádio. Seria o mesmo anacronismo que pretender alterar o nome do estádio 1.º de Maio para 13, ou a Igreja de Santo António das Antas, para S.to António do dragão. Assim, por não existirem figuras alegóricas na heráldica bracarense, faria mais sentido que se chamasse o estádio da "pedreira", atributo tão intimidante para o adversário visitante como é o do dragão que deita fogo pela boca, ou outros exemplos conhecidos, tais como o "caldeirão" na Madeira, a "mata real" pela sensação de se poder ser caçado, etc.

Vivemos uma época curiosa, em que os ídolos venerados e recomendados, são os que se movimentam no relvado, com a curiosa displicência de nem sequer precisarem do epíteto de santo. Até porque São Quim ou o São Pena seriam atributos que não soam lá muito bem ao ouvido.

Enfim, o momento é de festa e o património arquitectónico de Braga está circunstancialmente mais rico. Ainda que a desproporção desta glória dificilmente possa chegar aos céus, estamos crentes que na Sua infinita paciência o Altíssimo sempre absolverá a nossa soberba passageira, sabendo-se de antemão que a absolvição terá por atenuante a penitência que iremos padecer nos próximos tempos em virtude dos gastos faraónicos.




Associado n.º 342 da ASPA


O novo Estádio de Braga