[Publicado do "Diário do Minho" de 2003.08.11]

 

Requiem por mais outro edifício bracarense
Eduardo Pires de Oliveira

Lê-se nos jornais, ouve-se na rádio anunciar que Braga se irá candidatar a ser Capital Nacional da Cultura no ano de 2008 e não se acredita. Anda-se pela rua, vê-se a cidade, foge-se dos carros, procura-se o sol, olham-se os prédios e também não se acredita. 

Uma capital da cultura não implica apenas espectáculos, exposições, e outras manifestações artísticas similares. Os espectáculos de música – clássica, jazz, ou qualquer outra – fazem-se facilmente se houver dinheiro e terão público se forem ao ar livre e gratuitos. As exposições também são fáceis de organizar desde que haja dinheiro para pagar ao comissário que as coordena, aos museus a cedência das peças, aos seguros, transportes, etc.; mas já são mais difíceis de atrair massas porque implicam um acto volitivo – o entrar na sala de exposições, que em geral são espaços fechados – e porque os pintores contemporâneos, mesmo os mais conhecidos, não gozam tanto dos favores das massas quanto os músicos. Etc., etc.

Claro está que se estes espectáculos não forem produzidos por bracarenses, a cidade não aproveita: gastou dinheiro, deu show, mas não criou um público crítico, um público que tenha de tal forma tomado o gosto pela cultura que a passe a exigir, que a passe a querer como parte fundamental do seu quotidiano.

Ora, qual é o único espaço de exposição, qual é a maior sala de exposições, qual é a sala em que o público não tem necessidade de entrar porque já está permanentemente nela?

Essa “sala” é a cidade, a própria cidade. Uma cidade é um conjunto fantástico de factores, de urbanismo, de arquitectura, de escultura, de “happenings”, de..., de..., de..., ou seja, das mais variadíssimas formas artísticas.

A verdade é que não é fácil andar por esta cidade, cada vez é menos atraente andar na cidade de Braga. São os carros que são omnipotentes (o leitor já experimentou ver a Praça do Município sem carros? É belíssima. Já experimentou ver o Campo Novo sem carros, esse singularíssimo e único caso de praça portuguesa em forma de losango, talvez o mais antigo caso de urbanismo português?); são os edifícios modernos que não dialogam com os antigos; é a falta de espaços verdes...

Será que vale a pena andar em ruas em que não há o cuidado de preservar as casas? em que se fazem pseudo-integrações como é o caso do edifício situado no extremo Sudeste da avenida Central? será que há algo que nos atraia a subir até ao miradouro de Guadalupe, sobretudo agora que desapareceu a centenária Casa dos Castelos, um dos mais antigos exemplares portugueses de arquitectura romântica, anterior a 1863? será que dá prazer passar na Senhora a Branca e ver o que aconteceu ao Palacete Matos Graça? ou na rua Andrade Corvo e ver o espaço vazio da antiga fábrica de sinos e a destruição mais do que iminente daquela casa aqui falada no último texto desta coluna da ASPA, casa que tinha no seu interior belíssimas pinturas?

Será que a Câmara sabia que estas casas foram destruídas? Quase dá para pensar que não sabia, não senhor. Que não interessava saber, diremos nós.

Mas, pela sua actuação, nós até acreditamos que a Câmara conhece muitos destes edifícios e que os quer ver destruídos. O leitor acha que eu estou a exagerar? Pensa que são muito violentas estas palavras? Que é só acinte?

Pois é, o caso é mais grave do que parece e prova mais brutal não poderá haver: na passada terça-feira passei na Praça do Município e, para meu espanto, vi que o interior da antiga Casa dos Vilhenas tinha sido totalmente destruído. Uma casa que seja só fachada é como um corpo sem alma; e, além disso, esta casa tinha pinturas que deveriam datar dos últimos decénios do séc. XIX, pinturas que agora já pertencem irremediavelmente ao passado.

Mas, perguntar-me-á o leitor: e porque é que a Câmara tinha obrigação de conhecer estas pinturas? A resposta é muito simples: porque durante cerca de duas décadas funcionaram aqui vários serviços da Câmara Municipal de Braga!!!

Será que o IPPAR foi avisado desta destruição? Será que o IPPAR sabe da destruição dos edifícios da rua Andrade Corvo? É que ambos ficam dentro da área de protecção de diversos edifícios classificados.

Mas será que uma cidade que afirma que quer ser Capital da Cultura precisa que seja o IPPAR a defender o seu património???




Associado n.º 7 da ASPA