[Publicado do "Diário do Minho" de 2003.07.14]

 

Requiem por mais uma bela casa de Braga?
Eduardo Pires de Oliveira

Há alguns anos vi um livro onde se reproduziam uma série de cartoons apresentados em Gabrovo, cidade conhecida pela sua bienal de desenho humorístico. Naquele ano, o tema que teve maior visibilidade foi o humor negro: uma casa de dimensões humanas rodeada pela selva de cimento, um pequenino jardim envolto em blocos de apartamentos, etc.

O povo português conhece bem esta realidade, pois não há ninguém que nunca se tenha referido à alegoria da bela flor rodeada pela estrumeira. Peguemos neste caso. Imaginemos que a flor era a mais bela que se poderia idealizar. Mas se tivesse nascido no meio de um monturo quem é que iria olhar para ela? Quem é que iria sequer passar por ali se houvesse outra rua ao lado mais limpa? Nunca me esquecerei dos mais belos olhos de criança que já vi: uma menina de uns 5 anitos, com um vestidito esfarrapado, cara suja, a brincar no lixo que envolvia a sua casa. Os olhos eram de uma beleza, de uma profundidade, de uma força maior que a do mais potente farol. Fiquei preso, tive que ser arrastado. Foi um daqueles momentos que nunca esquecerei, em que lamentei não ser um bom fotógrafo. Em muitas revistas de fotografia, ou de belas fotografias, tenho visto outras imagens magníficas. Mas nenhuma como aquela. Pois ninguém, talvez, se quisesse aventurar a ir aquele sítio horrível por onde eu passara: estávamos em Benares, nas imediações de um dos locais onde os hindus cremavam os seus cadáveres, próximo do Ganges. Naturalmente que ninguém se aproxima de um local como este.

Naturalmente que também ninguém vai visitar um local sem história, ou um local que destruiu a sua história. Qualquer dia ninguém será capaz de ver onde é que está a mais nobre entrada de Braga, o Arco da Porta Nova, tão escondido se encontra, tão achincalhado está por prédios que lhe fizeram perder a sua dimensão de arco triunfal, homenagem que os Senhores de Braga, os Arcebispos, quiseram fazer a si próprios pela mão de um dos seus mais categorizados membros, D. Gaspar de Bragança. Deixar continuar assim o envolvimento deste monumento, monumento que deu origem a vários ditos que marcam a cidade ("és de Braga, não fechas as portas"; "vai abaixo de Braga"), monumento em cuja sombra Braga recebia da forma mais galharda o seu novo Senhor, é querer matar a cidade.

E perdeu-se, também, a perspectiva agradável de quem descia a Rua D. Diogo de Sousa, que via além da Porta uma mancha de verde, num diálogo intencional com a paisagem envolvente que hoje uma enorme parede cega corta abruptamente! De outros, infelizmente de muitos outros casos semelhantes se poderia falar em Braga. E digo infelizmente porque Braga já é bem conhecida pela forma como os seus responsáveis têm tratado o seu património monumental.

Lembremos outro edifício: em 1875 o comboio chegou a Braga. Abriram-se então duas ruas: Cardoso Avelino e Andrade Corvo. Enquanto a primeira, porque mais próxima de uma rua ocupada com casas em que viviam pessoas pobres tardou a ser urbanizada, a outra recebeu uma série de edifícios de razoáveis dimensões e de certa qualidade, tornando-se não só um símbolo da expansão da cidade como, também, de uma certa qualidade de vida. Quem morava ali estava mais próximo do progresso, progresso que era representado precisamente pelo novo meio de transporte que punha Braga a apenas duas horas da capital do Norte, em vez das sete ou oito horas que a diligência demorava então a percorrer.

Entre essas casas havia uma, imediatamente a seguir ao jardim existente nas traseiras do Palácio dos Biscainhos que, segundo penso, pertenceu a um dos membros da família Valença, uma família de honradíssimos comerciantes, que contou entre os seus membros com José Fernandes Valença, um homem que se tornou numa das personalidades chave da cidade no último quartel do séc. XIX. Um dos seus familiares, não sei se irmão, Eduardo Fernandes Valença, foi o homem que mandou construir aquela casa. Exteriormente, é um edifício digno, de uma relativa monumentalidade, bem longe das construções cheias de arrebiques dos brasileiros. Notava-se que o seu dono tinha uma fortuna feita cá!

Em 1981, a ASPA descobriu que aquela casa (então denominada "Pinto Pereira") tinha a decorá-la uma série de pinturas muito interessantes. Uma representava o Bom Jesus do Monte; outras, a Torre de Lapela, a Torre de Belém, uma estação do caminho-de-ferro da linha do Douro, paisagens brasileiras... Há poucos anos soube-se que a casa tinha mudado de mãos e temeu-se que o seu destino fosse o do camartelo, como tantos outros edifícios de qualidade da cidade. Moveram-se as mais diversas influências, parecendo então, que se podia pôr essa tétrica ideia de lado. Há dias fomos confrontados com uma notícia do "Diário do Minho", que nos informava que uma das paredes laterais desta casa estava a ruir. Para cúmulo, a fotografia que publicavam era deveras elucidativa do estado de degradação a que tinha chegado. Degradação por abandono intencional? Em Braga, estes "acidentes" não costumam ser inocentes… Qual vai ser o destino desta casa? Braga vai perder mais um dos seus edifícios notáveis? Que é que a Câmara vai fazer: esperar que o edifício caia de vez e, depois, aprovar a construção de mais um edifício de sete ou oito andares? Ou vai fazer aplicar a lei que obriga os senhorios a não deixar degradar as suas casas? Entretanto que atitudes é que já tomou? Já foi lá algum dos seus arquitectos ou engenheiros fazer uma vistoria? Qual foi a sua proposta? E qual foi a decisão final tomada?

Com certeza que o leitor já entendeu porque é que comecei este texto com a história daquela menina indiana. É que mesmo as flores belas precisam de um jardim para ser admiradas. Sem um envolvimento capaz, os monumentos de Braga (e há poucos anos uma das edições do tão conhecido "Guia Routard" avisava que os arredores imediatos de Braga lembravam as piores cidades da Europa de Leste...) não haverá ninguém que cá queira vir. Braga não é uma cidade tão rica que possa pôr-se fora da mais importante e florescente indústria mundial, o turismo.




Associado n.º 7 da ASPA