[Publicado do "Diário do Minho" de 2003.04.28]

A ASPA DIVULGA

A propósito de uma pintura do Mosteiro do Salvador, hoje no Museu Nacional de Arte Antiga
Vítor Serrão
Eduardo Pires de Oliveira
Henrique Barreto Nunes

39. Santa Maria Madalena / Irmã Joana Batista
Óleo sobre cobre, assinado, fim do século XVII
26 x 21,5 cm
Proveniência: Convento do Salvador de Braga
Lisboa, Museu Nacional de Arte Antiga
Inv. nº 1058

Composta com um grande sentido decorativo e uma intenção claramente moralizadora, esta singular miniatura representa Santa Maria Madalena, jovem pecadora, em pé, vestida com roupagens sumptuosas à moda de uma dama nobre e galante, desprovida das suas jóias e dos seus adornos profanos e assumindo o seu arrependimento.

Estes traços revelam uma espontaneidade desprovida de artifícios particulares, uma cultura artística limitada, preciosamente ligada à descrição dos detalhes cuidadosamente pintados. Ainda que esta cena esteja engenhosamente executada e reveladora dos cânones estéticos ditados pela Contra-Reforma e do espírito da sua autora marcado pela devoção conventual, constitui um testemunho precioso para o conhecimento da joalharia da época, pela minúcia com que são representados os colares, os brincos, o broche, as pérolas e outras peças luxuosas que a santa arrependida deposita sobre a mesa.

No centro desta cena o afrontamento de dois campos opostos do comportamento moral reforça o interesse iconográfico: de um lado o caminho da justiça através de uma janela aberta que nos oferece um panorama bucólico e paradisíaco, em contraste com a luxúria e o luxo ostentatório representado pelas jóias colocadas em cima da mesa, o baldaquino e a cortina, o gato e o vaso com flores colocados à direita. Sobre uma arca colocada junto da janela está um alaúde (do árabe al'ûd, instrumento doméstico por excelência até à introdução do cravo em meados do séc. XVII), que simboliza as artes livres, que o contexto moral opõe às vãs peças mundanas representadas à direita.

A sua autora, a irmã Joana Batista, foi uma das numerosas monjas artistas que emergiram nesta época e faz prova de uma grande capacidade para a pintura decorativa, de que as crónicas conventuais fazem um elogio por vezes excessivo, das suas qualidades criadoras. Josefa de Ayala (Josefa de Óbidos), ainda que seja a personalidade mais importante, não foi a única mulher pintora do século XVII. Os cronistas de setecentos e oitocentos (Damião de Froes Perym, Barbosa Machado, Cyrillo Volkmar Machado, José da Cunha Taborda, Cardeal Saraiva e outros) falam elogiosamente da Cecília do Espírito Santo, freira do convento das Chagas de Vila Viçosa; da nobre Maria Madalena de Castro; de Maria dos Anjos, professa no convento de Santa Maria de Sena, em Évora; de Teodora Maria Andino, activa em Faro; e da nobre Dona Ana de Lorena, consideradas como artistas de uma certa capacidade e de uma grande sensibilidade.

Nos livros de entrada de irmãos da Irmandade de S. Lucas estão referenciadas outras pintoras: a nobre Maria de Guadalupe Lencastre e Cardenas que foi presidente em 1659; as irmãs Catarina das Chagas e Dona Joana Coutinho, entradas em 1674, Paula da Coluna, Mónica de Santo Agostinho, Inês da Encarnação (1680), Antónia do Sacramento (1684) e Isabel de S. Bernardo, Vicência Evangelista, Bernarda Isabel, Joana do Deserto, Teresa Caetana, Úrsula Teresa, Joana Micaela e Mariana de Santa Rosa (1711).

No que respeita à irmã Joana Batista, autora desta pequena pintura sobre cobre, sabemos muito pouco, excepto que ela deixou obras em casas franciscanas, como este cobre de Santa Maria Madalena proveniente do Convento do Salvador, de Braga e em lugares beneditinos, como o convento de Tibães. Tem sido dito que esta freira era irmã do general do exército real, D. Manuel de Meneses, cronista do rei. Originária de Campo Maior, segundo a tradição, ela viveu no convento das Maltesa de S. João de Estremoz.

Exposições: Exposição Arte e Música. Iconografia Musical na Pintura do séc. XV ao séc. XX. Museu da Música, Lisboa, 1999, nº 84.

Bibliografia: Eduardo Pires de Oliveira, O edifício do Convento do Salvador de Braga (de convento de freiras a lar de Conde de Agrolongo), Braga, 1994; Luís de Sousa e Mariana Santos, Santa Maria Madalena, in Maria Helena Ferraz Trindade (coord.), Exposição Arte e Música. Iconografia Musical na Pintura do séc. XV ao séc. XX. Museu da Música, Lisboa, 1999, pp. 110.111; e Alino Hall, A Pintura a Vertente do feminino e o século XVIII português, Lisboa, 1999 (a publicar).

Vítor Serrão





Foi com alguma admiração que recentemente descobrimos esta bela pecinha no catálogo da exposição "Rouge et Or. Trésors du Portugal Baroque", que teve lugar no Museu Jacquemart - André, em Paris, e que fora comissariada pelo Prof. Doutor Vítor Serrão, um eminente conhecedor da pintura portuguesa, sobretudo do período maneirista, e a quem nós minhotos devemos esse livro precioso que é André de Padilha e a pintura quinhentista: entre o Minho e a Galiza (Lisboa, Estampa, 1998). Sabia-se que no dia 22 de Março de 1893 o Convento do Salvador (que era de observância beneditina e não franciscana como se diz no texto acima) fora visitado por delegados do Museu de Belas Artes, actual Museu de Arte Antiga, que levaram para Lisboa, os objectos que acharam ser merecedores de passar a integrar aquele museu. Parece que não levaram grande coisa porque o convento era pobre. Pobres ou não, os diversos conventos bracarenses eram possuidores de uma série de objectos com interesse histórico ou artístico que em finais do século XIX foram levados para museus de Lisboa. Não vamos aqui voltar à habitual história de pedir que nos devolvam essas peças. Se calhar não as merecemos, porque nunca soubemos cuidar de ter um museu onde elas pudessem ser guardadas; vejam-se as enormes dificuldades que envolveram a criação do Museu D. Diogo de Sousa (1918) e a sua incrível história de abandono ao longo das décadas seguintes. Mas não seria de tentar trazer a Braga essas peças e fazer com elas uma exposição que nos desse a conhecer um pouco do que foram os conventos bracarenses no período barroco, o período de ouro da cidade? Aqui fica lançado o repto. Aos museus bracarenses e aos museus de Lisboa porque dos grandes responsáveis pela "cultura" municipal já sabemos a resposta, por muito que proclamem que querem ser capitais de algo sobre que nada sabem, não querem saber e têm raiva a quem sabe.

Eduardo Pires de Oliveira
Henrique Barreto Nunes