[Publicado do "Diário do Minho" de 2003.04.07]

Sobre o recente restauro da igreja da Misericórdia
Eduardo Pires de Oliveira*

Escrevi um dia:

O interior da igreja da Misericórdia é deslumbrante. Embora esteja longe do brilho e unidade que deveria ter em finais do século XVIII, a verdade é que ainda hoje é absolutamente notável.

Domina-o o triplo retábulo conjugado, levado a cabo de 1734 até quase o final dessa década, pelo extraordinário escultor que foi Marceliano de Araújo, talvez o maior vulto de toda a escultura joanina portuguesa. O elevado preço pago ao artista mostra bem toda a sua grandiosidade e pormenor. Para o corpo central foram 346$000 e para os dois laterais 387$000! Houve ainda um acrescentamento principal, o coroamento que uniu os três retábulos, pelo qual a Misericórdia veio ainda a pagar-lhe a elevada verba de 170$000 e a aceitá-lo gratuitamente, bem como a sua mulher, como irmãos. No total a linda quantia de 903$000!!!
Este retábulo é ainda favorecido pela magnífica tela que cobre todo o trono e que só é levantada nos dias de Lausperene. É um bom trabalho do pintor bracarense José Lopes, que o fez de propósito para aqui, no ano de 1735. A sua qualidade é tal que nada deixa a desejar ao que de melhor os pintores nacionais faziam em Lisboa na mesma data. Se possuíssemos maiores conhecimentos da iconografia bracarense da primeira metade do século XVIII é natural que tivéssemos a grata surpresa de vermos representados entre a multidão que cerca a Virgem, nos locais de maior destaque, os mesários que encomendaram a obra!

O douramento deste retábulo demorou ainda alguns anos. Só foi levado a leilão em Agosto de 1744, sendo arrematado pelo afamado dourador bracarense Estêvão da Silva, pintor andarilho com obra espalhada por todo o Norte de Portugal e Galiza.
O tecto, em caixotões, é obra de meados do XVII. Deveria ser como o que agora se vê no Salvador e o que existiu na Senhora-a-Branca e em vários outros templos bracarenses. Mas o gosto dos finais do século XIX alterou-o profundamente, bem como às paredes laterais. Trabalhou nestas pinturas o notável Domingos Fânzeres. Mas quase se pode dizer que foi pena que o tenha feito.
O que é certo é que a sua obra também tem qualidade e que o restauro que se operou neste templo nos finais do século passado foi não só importante para a sua manutenção como, também, foi obra de cuidado e de esmero, pelo que se deve louvar a Mesa que então o fez levar a cabo, que não regateou na procura dos melhores artistas - e eram muito bons - que então existiam em Braga.

Passados cerca de 100 anos, a direcção da Santa Casa da Misericórdia voltou a fazer uma intervenção de fundo na sua igreja principal (e referimo-nos apenas ao interior da igreja), intervenção extremamente longa, cara e difícil.
Longa porque demorou cerca de sete anos. Cara porque o orçamento final ficou-se por cerca de 850 000 euros. Difícil porque era preciso restaurar um dos mais espantosos conjuntos da riquíssima talha bracarense.

E o resultado final é o que hoje se pode ver. Que se pode ter o prazer de ver.
Não é o restauro apressado que se encontra, infelizmente, na maior parte das igrejas minhotas. Não são o azul-bebé ou o salmão as cores que agora dominam; não é a purpurina que nos dá o brilho [falso] do "ouro"; não são imagens que foram raspadas até ao cerne da madeira, não permitindo conhecer as técnicas originais da sua pintura ou estofo.
E se continuamos a lamentar que não tenha havido o cuidado de a equipa de restauro ter feito um levantamento documental prévio - e até era fácil graças à imensa massa documental que ainda hoje se conserva -, não podemos deixar de louvar os resultados obtidos, resultados que deveriam ser do conhecimento de todos, nomeadamente de quantos intervêm no restauro de arte sacra. Atrevemo-nos mesmo a propor que a diocese deveria sugerir a todos os párocos e comissões fabriqueiras, nomeadamente às equipas dirigentes dos santuários, que aqui viessem em peregrinação ver, estudar, aprender como se pode fazer um restauro cuidadoso, um bom restauro. Um restauro que honre e dignifique a sua igreja.

Ontem foi a Irmandade de Santa Cruz a dar o bom exemplo; hoje é a Santa Casa da Misericórdia. Será que está a haver uma mudança de atitudes quanto ao restauro? Ou será que ainda iremos continuar a assistir a actuações como a da Câmara Municipal de Braga em relação aos chafarizes da cidade, mesmo os mais emblemáticos?



Associado n.º 7 da ASPA

Igreja da Misericórdia
Igreja da Misericórdia