[Publicado do "Diário do Minho" de 2003.02.24]

A ASPA DIVULGA

A mínia 2000-2001 nos 25 anos da ASPA
Aida Mata*

Mínia 8-9 III Série 2000-2001Falar do prazer que sinto em partilhar, com os amigos, este momento de vitória da ASPA é desnecessário. Há muito que venho revelando e tornando público o meu profundo apreço por esta Associação, que reconhecendo a importância da memória colectiva de um povo e sentindo-se responsável pela preservação da sua identidade cultural, comprometendo-se com o estudo, divulgação e salvaguarda do seu património, empreendeu, sem vergar nem desistir, mantendo a espinha direita e a boca sempre aberta, um árduo combate pela conservação do seu legado cultural. Sublinhando a dimensão ética e social da actividade patrimonial, integra orgulhosamente as fileiras daqueles que, com Javier Rivera, defendem que "o património, hoje, não pertence nem à administração, nem aos políticos, nem sequer aos seus titulares ou mecenas, é da sociedade, e das gentes que vêem nele a sua identidade". 

Ditas estas palavras, que não podiam deixar de ser mencionadas sobre quem é merecedora do respeito e gratidão de todos os que prezam a sua identidade cultural e se sentem no dever da sua transmissão, compete-me agora, agradecendo a honra que me dispensaram, apresentar o último número da Mínia, publicação que, persistentemente, com empenho e dedicação, a ASPA, promovendo a reflexão e o debate, já fez sair do prelo 16 números.

Sob o signo da memória e propondo-me recuperar algumas das vividas nos 25 anos de utilidade pública da ASPA, vou agora falar-vos um pouco deste volume, o 8-9 da III Série- 2000-2001, que apresenta duas partes distintas. A primeira, reúne uma série de textos versando temáticas essencialmente bracarenses; a segunda , a Vária, pretende ser, segundo palavras da própria associação, "como que o espelho da vida associativa e da vitalidade da ASPA, vinte e quatro anos depois da sua fundação onde palpitam aspectos salientes da sua vida: da sua investigação, da sua opinião, dos seus critérios, das suas intervenções, das suas vitórias e das suas derrotas, da sua mediação tempestiva, da sua voz original e livre".
Para começar, e constatando de como a ASPA mantém fidelidade aos princípios e programa estabelecidos em 1977, chamo a capítulo (desculpem-me o vício monástico), o artigo da responsabilidade da sua Direcção, saído no Diário do Minho de 03.02.86 no "Entre Aspas", no qual a certa altura se lê: "Dar a conhecer a história de Braga, para melhor compreender a cidade que habitamos/desejamos vai ser uma das iniciativas a propor" e ainda "... interrogar a cidade, participar na manutenção ou recuperação da sua imagem, contribuir para a melhoria da sua qualidade de vida naquilo que tem a ver com os efectivos interesses e necessidades da comunidade serão preocupações que nortearão as iniciativas tradicionais da ASPA (visitas guiadas, exposições, conferências) ou outras que a nossa imaginação e criatividade consigam levar a cabo". Por casualidade ou não, todos estes princípios estão subjacentes aos artigos de fundo e aos da Vária desta Mínia.

Assim, vejamos: Eduardo Pires de Oliveira, o incansável investigador e prolífico autor sobre "as coisas de Braga", fala-nos sobre os grandes ciclos de obras da Sé dos últimos cinco séculos, desde os tempos renascentistas de D. Diogo de Sousa, passando pelos barrocos de D. Rodrigo Moura Teles e pelos neo-clássicos de D. Gaspar de Bragança, até acabar nos anos trinta do século passado, com o restauro da Direcção Geral dos Edifícios e Monumentos Nacionais. Correndo as suas páginas, onde nos relata ao pormenor todas as obras efectuadas, acompanhadas de documentação exaustiva, apercebemo-nos como é difícil a abordagem a um património, em particular ao arquitectónico. Um monumento fala de histórias e revela tempos: o tempo da construção, os tempos das sucessivas modificações, os tempos próprios dos materiais, dos sistemas e das técnicas construtivas, o tempo dos diferentes conceitos de projectar e os tempos dos usos e das diferentes maneiras de utilizar os monumentos. E saio da Sé fazendo minhas as palavras de um sócio da ASPA que em Julho de 1990, escrevia no "Entre Aspas" "... a transformação da Sé político-social em Sé monumental, não foi isenta de rupturas. Saibamos pois com inteligência e criatividade preservar e valorizar as contradições que herdámos.".
O artigo seguinte - "Bracara Augusta - perspectivas diversas" - escrito por Francisco Sande Lemos, arqueólogo da Unidade de Arqueologia da Universidade do Minho e uma das traves mestras do projecto de Bracara Augusta, ao qual está ligado desde o seu início, fala-nos dos distintos aspectos deste projecto, alertando para o facto de que o Salvamento de Bracara Augusta é um processo bastante complexo, um labirinto de problemas bastante distintos desde os científicos aos de financiamento passando pelos jurídicos; de conservação; laborais, etc. Recorrendo, como diz, a uma metáfora, apresenta várias Bracaras Augustas: Bracara - reserva para o futuro; Bracara - a fase visível; Bracara - a face escondida; Bracara - património documental; Bracara - os materiais; Bracara - conhecimentos em construção; Bracara - informática; Bracara - a gestão e as intervenções; Bracara - a divulgação. Claro, selectivo da informação face aos objectivos a que se propôs, irónico quanto baste, o autor faz-nos conhecer, respeitar e amar o projecto Bracara Augusta e honrar os técnicos que nele trabalham. Retive que, não obstante o poder político não ter sido capaz de concretizar a vasta reserva arqueológica inicialmente projectada, Braga é uma das cidades do nosso país com maior área de reserva arqueológica no interior do centro urbano. Anotei o reconhecimento de uma plataforma de comunicação entre os arqueólogos da Universidade, da Câmara e do Museu e a sua vontade férrea de continuarem, contra todos os ventos e marés. Gostei da certeza escrita de que enquanto os responsáveis pelo estudo de Bracara Augusta forem vivos este projecto continuará. E no âmbito deste artigo não posso deixar de focar a acção de Carlos Teixeira e Russel Cortez, Luciano Santos e Arlindo Ribeiro da Cunha, Rigaud de Sousa e da Codep, o embrião da ASPA, que abriram caminho ao trabalho firme, persistente e esclarecido da equipa responsável pelo projecto de Bracara Augusta..
Ainda de Braga, mas dum espaço temporal compreendido entre 1834-1910, nos fala o artigo - "Braga durante o Constitucionalismo Monárquico" - de José de Sepúlveda Duarte Macedo, professor e investigador da história de Braga. O estudo agora apresentado representa a primeira tentativa de reunir num todo coerente o material que recolheu com vista à elaboração de um trabalho que abordará o período da história de Braga compreendido entre 1851 e 1926. Por ele ficamos a saber que Braga foi desde, o início, uma terra onde mais se evidenciaram resistências às transformações liberais que ocorriam e que só a estabilidade política e a Regeneração permitiram recomeçar a obra de modernização incipiente iniciada no período das lutas liberais. Assim, em 1841, começa o liceu a sua actividade, instalado ainda no Seminário de S. Pedro, no Campo da Vinha, acompanhada de perto pela Biblioteca; em 1843 inicia-se a iluminação a petróleo, substituída em 1856 pela iluminação a gás, que por sua vez daria lugar, em 1893, à iluminação eléctrica; nos inícios dos anos 60 é aberto o Passeio Público, época em que o Teatro, no actual edifício do Banco de Portugal, já funciona, assim como o Banco do Minho e a Arcada já tem o segundo andar; em 1875 chega o combóio a Braga e na década de 70 instala-se o carro americano, modernizado com a aplicação da máquina a vapor na tracção, entre os Peões e o Elevador do Bom Jesus, e logo a seguir com a sua utilização a partir da estação do caminho de ferro; em 1882 já sobe o elevador para o Bom Jesus. 
Como diz o autor, a febre da modernização ia-se apossando de todos. Os grandes atentados viriam no principio do século XX, com o início das demolições do Convento dos Remédios e da cidade medieval. Em Fevereiro de 1910 o Comércio do Minho ao fazer uma espécie de balanço da obra regeneradora escreve: "Braga tem de tempos a tempos destas hereditárias ganas contra tudo o que é velho, tradicional - coisa para ela sem valimento, sem significação, sem prestígio (...). Em Braga uma porta antiga, um arco, um torreão, um postigo são seres de má raça que é preciso destruir e exterminar e assim se tem visto a cidade servir-se de menor pretexto para os demolir".
Perante estas palavras, apetece-me ironizar e, pedindo desculpa a Camões, dizer: mudam-se os tempos, mantêm-se as vontades... 
E já que estamos no campo das denúncias é tempo de relembrar a acusação pública e constante da ASPA perante o ataque sistemático ao património arqueológico, arquitectónico, artístico, industrial e paisagístico da cidade, que fez desaparecer memórias centenárias que integravam o imaginário colectivo dos habitantes de Braga. Não havendo tempo para os enumerar a todos, mas aconselhando-vos a relerem atentamente o "Entre Aspas 1984-1991", cito apenas os casos mais recentes, aliás quase todos eles bem documentados na Vária desta Mínia: as Sete Fontes; a Fábrica de Sedas e de Damascos da "Paramentaria Vasconcelos" (da qual a ASPA conseguiu salvaguardar os antigos teares Jacquard); o Palacete Rocha Vellozo e Jardim; a Quinta dos Peões; a Fábrica de Sabonetes Confiança; o palacete de brasileiro da Rua Bernardo Sequeira; os diversos terrenos envolventes das escolas de Real, Calouste Gulbenkian, Luís de Castro e ainda os da Capela de Santa Marta das Cortiças na Falperra, etc. etc. etc. 

Mudemos de perspectiva deste mundo tridimensional e reconhecível, relativamente codificado e físico. Façamos agora, a passagem para um outro mundo feito sobretudo de memória e conhecimento. 
Percursos pela memória e conhecimento proporcionam-nos os restantes cinco artigos. Maria de Fátima Castro, investigadora no âmbito da História das Instituições, revela-nos um inesgotável e interessante caminho que, percorrendo vastíssimos arquivos documentais, nos desvenda as origens, percursos e ritos de relíquias na Sé e nas Igrejas da Misericórdia e de S. Marcos e o historial dos cultos a S. Pedro de Rates, S. Pedro Mártir e S. Pedro Apóstolo na Sé Primaz; Adriano Reis Ramos, conservador-restaurador em Minas Gerais, conta-nos a sua incansável busca, começada no Minho e continuada em Minas Gerais, atrás da vida e da obra de Francisco Vieira Servas, um entalhador minhoto do século XVIII, e faz-nos acompanhá-lo no seu deambular pelas igrejas, retábulos e imagens da antiga capitania para definição de tipologias e estilos; António Matos Reis, professor e investigador da história de Ponte de Lima, num percurso pelas faianças nortenhas, sob inspiração das porcelanas chinesas, chamando contributos de ordem arqueológica e documental, defende a reivindicação das origens nortenhas, especificamente do Prado, das faianças que, indevidamente, têm sido designadas como de Monte Sinai; António José de Oliveira, professor/mestre em História e Cultura Medievais e Lígia Márcia Cardoso Correia de Sousa Oliveira, arquivista na Direcção Regional de Edifícios e Monumentos do Norte, no âmbito do seu projecto de investigação sobre o vasto universo de oficiais e mestres ligados à pedraria, arte da talha, carpintaria, ourivesaria e olaria, que exerceram a sua actividade em Guimarães nos últimos anos do séc. XVII e XVIII, dão conhecimento de alguns contratos notariais de ourives de Braga e Porto, que permitem constatar que estes ourives tiveram acções simultâneas e nem sempre coetâneas no espaço, o que lhes obrigava a criar uma máquina "empresarial" bastante complexa; Maria Marta Lobo de Araújo professora universitária e investigadora do Centro de Ciências Históricas e Sociais da Universidade do Minho mais uma vez nos vem proporcionar um longo percurso, que nos deu muito prazer percorrer, sobre as vidas das mulheres pobres de Ponte de Lima, assistidas pela Misericórdia durante os séculos XVII e XVIII. Esta Misericórdia, à semelhança de muitas outras instituições de assistência, escolheu as mulheres como principais beneficiadas da caridade. Às receptoras exigia-se que fossem dignas, isto é reputadas e publicamente reconhecidas como merecedoras. Recorrendo à caridade, solicitando os dotes de órfãs, o legado para viúvas ou distribuição de roupa, expunham-se dando a conhecer retalhos das suas vidas, apreendidos pela autora em dois tipos de fontes: as petições produzidas pelos pobres e as informações prestadas pelas instituições. 

E porque esta apresentação já vai longa, vou-me despedir mas não sem antes deixar algumas reflexões: 
Todos sabemos que a cidade se tem modificado, fruto de incisivas e traumáticas intervenções que alteraram a sua organicidade e desfiguraram os testemunhos do passado. Se mais não seja, isto será o suficiente para que o Passado, a História, e portanto, o Património, se revista de uma importância vital e se torne imprescindível para o equilíbrio de uma sociedade em mutação permanente. Esta tarefa de vincular o património com a sociedade é um trabalho que não compete a um só agente cultural, mesmo que ele tenha a força da ASPA, mas sim a toda a comunidade, que tem em conta a sua memória colectiva e está consciente do seu passado e, nessa medida, se torna responsável pelo seu próprio património.


* Directora do Museu de S. Martinho de Tibães
[intervenção de apresentação da revista Mínia na sessão de encerramento das comemorações dos 25 anos da ASPA, em 8 Fev]