[Publicado do "Diário do Minho" de 2003.01.13]

Parte I - ["DM" 2002.12.30]

Para a História da Fonte do Ídolo - 2
Francisco Sande Lemos

Em 1995/6, ao longo de quatro meses (Dezembro, Janeiro, Fevereiro e Março), a Unidade de Arqueologia da Universidade do Minho efectuou sondagens na zona envolvente do monumento.
Os resultados desses trabalhos arqueológicos são inconclusivos. A Oeste do recinto foram delimitadas e escavadas seis sondagens.
Verificou-se que o afloramento granítico se estende para Oeste, mas não se encontraram quaisquer inscrições gravadas na rocha, nem outros sinais iguais, ou parecidos com um eventual santuário do tipo de Panóias. Nestas sondagens as únicas estruturas identificadas (uma área calcetada e muros) relacionam-se com um espaço ajardinado, atribuível à Idade Moderna.
Para Sul as três sondagens abertas, foram abandonadas a cerca de um metro de profundidade por razões de segurança, devido à pouca consistência do solo, provavelmente um aterro da Idade Moderna, ou mesmo Contemporânea.
Os resultados decepcionantes e problemas de segurança levaram ao cancelamento dos trabalhos arqueológicos.
Posteriormente, a Norte na faixa de acesso encontrou-se o nível de preparação da obra realizada nos anos trinta. Nesta zona o sub-estrato rochoso está a pouca profundidade.
Para além destas sondagens, e necessário referir dois acompanhamentos efectuados pela equipa do Gabinete de Arqueologia da Câmara Municipal de Braga.
Primeiro nos terrenos envolventes da casa onde funciona a sede da APPCDM. Os resultados deste acompanhamento, indicam, para Oeste da Fonte do Ídolo, o prolongamento do já referido maciço rochoso. Nos afloramentos graníticos não se encontraram indícios de inscrições gravadas na rocha, sulcos ou cavidades. Para Sul do maciço granítico observava-se uma espessa camada de aterro, pouco consistente, humosa. Numa das paredes da casa, durante as obras, foi detectada uma ara, com inscrição truncada. A Norte da sede da APPCDM o Gabinete de Arqueologia da CMB efectuou o acompanhamento da reconstrução de um edifício do século XIX, que foi adquirido pelo município e adaptado para a infra-estrutura cultural (Videoteca). Conforme nós próprios verificámos, em diversas deslocações à área de desaterro, o sub-estrato rochoso, situa-se a escassa profundidade, embora o granito esteja mais alterado nesta zona.
Sobre o granito observava-se uma camada de aterro com materiais romanos e de épocas posteriores.
O que se pode inferir de todos estes dados?
Em nosso entender a Fonte do Ídolo era um santuário privado que se integrava num conjunto suburbano. A possibilidade de reconstituir esse edificado foi definitivamente destruída em 1989, com a complacência do IPPC, quando se realizaram grandes desaterros a Sudoeste do monumento. Num dos cortes abertos pelas máquinas notava-se um muro com excelente aparelho.
Por outro lado, a gravidade desta destruição ficou bem documentada através de trabalhos arqueológicos que incidiram na área do nefasto desaterro, realizados, mais tarde, nos anos 90 pelo Gabinete de Arqueologia da Câmara Municipal de Braga.
Mais tarde, já no fim da época de 90, quando a equipa da CMB procedeu ao acompanhamento da construção do imóvel, a Sul da Fonte, verificou que as estruturas romanas se prolongavam para Sul do supracitado muro e Leste do citado desaterro, sob a calçada da antiga cangosta de S. Lázaro. A par de diversos muros foi identificado um poço romano.
Na altura foi discutido com o promotor imobiliário, a possibilidade de se realizarem escavações financiadas pelo próprio. Todavia, o construtor escusou-se, preferindo não avançar mais para Leste.
Esta área, entre o supracitado imóvel e as traseiras dos prédios da Avenida da Liberdade foi reservada para futuras escavações.
Resumindo: os poucos elementos de que dispomos sugerem que a Fonte do Ídolo estava integrada no jardim de uma domus. Este tipo de pequenos santuários privados era frequente nas urbes do Império Romano.
O proprietário dessa casa, que também incorporava uma zona de produção artesanal, terá sido Celico Fronto, que terá gravado para o futuro a memória do seu nome na superfície rochosa de onde brotava a fonte que, provavelmente, abastecia a sua casa e a zona de oficinas, documentada por um conjunto de drenos e de tanques descobertos a Sudeste da Fonte do Ídolo, já próximo do edifício do Hospital Distrital de Braga, pela equipa da Câmara, em 1995.
Não sabemos se numa fase inicial o santuário terá sido protegido por uma estrutura, configurando um templete.
De facto, uma inscrição mandada gravar pelos bisnetos de Celico Fronto, que corresponde a um lintel, poderá registar tanto uma reedificação como um novo edifício. A epígrafe diz: T. CAELICVS - SIPIPES FRONTO - ET - M - ET - LVCIVS - TITI - F - PROPONETES - CAELICVS FRONTONIS - RENOVARUN (CIL II, 2420).
Este lintel tem sido associado à Fonte do Ídolo. Todavia, não temos qualquer indicação concreta que o relacione directamente com o monumento, salvo o nome de CAELICVS FRONTO. Esta epígrafe estava na parede Sul da Capela de Santa Ana, sendo já citada pelos antiquários do século XVI.
Poderia, eventualmente, estar relacionada com trabalhos de reconstrução de qualquer outro sector da domus erigida por Célico Fronto.
Todavia a hipótese de a ligar à Fonte do Ídolo é assaz credível, como manutenção de um culto familiar, no contexto de um santuário privado.
Neste sentido seria interessante ponderar a sua inserção no espaço valorizado.
Em conclusão:
- pensamos que a interpretação epigráfica, proposta por José d'Encarnação, se mantém, apesar de outras leituras, como ás de António Rodriguez Colmenero.
- julgamos que a possibilidade da Fonte do Ídolo ter sido um santuário colectivo relacionado com a proximidade da necrópole da via Bracara-Aquae Flavinae-Asturica, como sugeriu Alain Tranoy, ou com cultos pré-romanos, como propôs António Rodriguez Colmenero, não se justificam.
- entendemos que a Fonte do Ídolo foi um santuário privado, considerando as estruturas arqueológicas descobertas a Sul e Sudoeste.



Associado n.º 31 da ASPA

Parte I - ["DM" 2002.12.30]