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Para a História da Fonte do Ídolo - 1
Francisco Sande Lemos
FONTE DO ÍDOLO - HISTÓRIA DO MONUMENTO
A Fonte do Ídolo é, talvez, a par de Panóias,
um dos mais conhecidos monumentos de epigrafia rupestre romana do Noroeste da
Península Ibérica. A sua imagem tem sido difundido através de inúmeras
publicações científicas e obras de divulgação.
Todavia, ignora-se o contexto histórico da sua descoberta.
Não é referida no mapa de Braga de Georg Braun, datado de 1594, o qual, no
entanto, localiza outros pontos da antiga cidade romana, como o Forum,
necrópoles e as vias que partiam de Bracara Augusta.
Também não é referida no manuscrito "Antiguidades de Entre Douro e Minho
e Trás-os-Montes" de João de Barros, redigido no século XVI.
No século XVII não consta da História Ecclesiastica dos Arcebispos de
Braga, da autoria de Dom Rodrigo da Cunha (1634), livro onde são
mencionados outros testemunhos da antiga cidade romana como a muralha do Baixo
Império e o anfiteatro de S. Pedro de Maximinos, a par de numerosas inscrições.
Porém, quase um século depois a Fonte do Ídolo é descrita na obra de Jerónimo
Contador de Argote. Nesta obra foi, mesmo, incluído um desenho da Fonte, que não
se afasta muito do original, embora seja destacada num quadro bucólico
envolvente o qual não corresponde à descrição do texto, onde se afirma
explicitamente "Detraz da Igreja de S. Marcos está um quintal, a que
chamam o Ídolo, nele está um fonte funda, com tanque, e tem uma pedra, que
parece ser rocha viva, a qual tem uma figura de roupas compridas,..." (Argote
1728).
Como se sabe este autor reuniu diverso material, parte do qual ainda se encontra
inédito. A descrição e o desenho devem-se a Alves de Figueiredo, bispo de Urianopolis. O manuscrito deste antiquário
encontra-se na Biblioteca Nacional. Para além da descrição e desenho deste manuscrito consta a primeira leitura das
epígrafes gravadas no rochedo. Terá a Fonte do Ídolo sido descoberta entre a segunda metade do século XVII e os
inícios do século XVIII?
Recordamos que este período corresponde ao primórdio da nova cidade barroca.
Ora uma das características de Braga do século XVIII é a construção de um
conjunto de palácios que circundam o núcleo histórico medieval e do
Renascimento. A estes palácios está associada a reorganização do espaço
rural envolvente. Embora o sistema de terraços, muito antigo, se mantenha,
verificam-se arranjos, organizam-se jardins.
Embora o quintal da Fonte do Ídolo hão tenha pertencido ao Palácio do Raio,
outras casas próximas também procederam a arranjos nos seus logradouros.
Estes arranjos mantiveram-se, embora com diversos graus de alteração, até ao
século XIX, tendo sido registados na segunda planta da cidade, como é o caso
da parcela onde se situa o monumento.
Assim, desde a sua primeira menção, na obra de Contador de Argote até ao século
XX, a Fonte do Ídolo esteve inserida no quintal de uma casa da rua do Raio, no
fundo de uma mina de água.
Emílio Hübner visitou o local e publicou uma segunda leitura da inscrição no
II volume do Corpus Inscriptiones Latinaram (CIL II, 2419).
Mais tarde, em 1905, José Leite de Vasconcelos divulgou a planta da mina de água
onde se via a Fonte do Ídolo, bem como um alçado com as esculturas e gravuras
do penedo. Para além disso, procedeu a uma leitura mais completa da inscrição.
Em 6 de junho de 1910 o sítio foi classificado como Monumento Nacional.
Contudo só em 1936 a Câmara de Braga, por iniciativa do seu Presidente, Dr. Francisco
Araújo Malheiro, decidiu adquirir a parcela do terreno onde localizava a Fonte, transferindo a sua
propriedade para o Património do Estado.
Na sequência desta iniciativa, em 1937?, a Direcção dos Monumentos Nacionais projectou e executou a valorização da Fonte do Ídolo, de acordo com os critérios vigentes na época. Para destacar
a superfície granítica onde se foi esculpido o baixo relevo, e gravadas as inscrições, desmontou a mina e desaterrou o local, revestindo com pedra a área escavada. Deste
trabalho não temos registos, ou pelo menos não foram divulgados pormenores.
Sabe-se apenas, por um texto do geólogo Carlos Teixeira (1938), à época funcionário em Braga da Junta Autónoma das Estradas, que, durante as escavações, foi encontrada muita tégula e tijolo. Foi, também recolhida uma singela ara à deusa Nabia, dedicada por Rufina.
O Inventário do Património Arquitectónico da DGEMN refere pequenas intervenções em datas posteriores: 1952 ("Pequena reparação"), 1967 ("arranjo do
acesso"); 1985 ("obras de conservação").
Em 1970 foi estabelecido uma vasta Zona Especial de Protecção, destinada a salvaguardar a Fonte do Ídolo, o Palácio do Raio e o Hospital da Misericórdia (Diário de Governo de
10 de Maio de 1970).
Nas décadas seguintes diversos autores divulgaram a sua interpretação sobre o monumento: José d'Encarnação (1975; 1995); Alain Tranoy (1980; 1981), Pereira Menaut (1985) e, finalmente
António Rodriguez Colmenero que, em textos sucessivos (1993; 1995), propõe leituras cada vez mais intricadas.
Associado n.º 31 da ASPA
(continua)
Parte
II - ["DM" 2003.01.13]
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NOTA
INTRODUTÓRIA
A ASPA não pode deixar de se
congratular com o anúncio feito pela Direcção Geral dos Edifícios e Monumentos
Nacionais do início das obras de salvaguarda e dignificação de Fonte do
Ídolo. Mais vale tarde do que nunca!
Por essa razão publicamos este texto do nosso associado Doutor Francisco
Sande Lemos que evoca os passos principais da história do tão desprezado monumento e
referencia as mais recentes intervenções arqueológicas ali realizadas.
Contudo a ASPA também não esquece que, desde o início da
sua actividade, tem pugnado pela defesa e valorização da Fonte do (a primeira intervenção na
imprensa data de Março de 1978) e não pode ignorar que o estado de degradação e abandono a que "o singular ídolo dos
Granjinhos' chegou se ficou primordialmente a dever à Câmara Municipal de Braga que, por desinteresse, por
incúria e por omissão quase condenou à morte o monumento.
Foram diversos os comunicados, os "Entre Aspas" e as intervenções públicas que dedicámos à Fonte do
Ídolo e fomos nós os primeiros a condenar, num "Entre Aspas" datado de 23 Out. 1989, o criminoso atentado que, com a complacência (a cumplicidade?) da CM de Braga, o espaço
adjacente sofreu, quando foi feito um enorme desaterro no local onde hoje se ergue o imóvel que alberga a Loja do
Cidadão (isto já para não voltarmos a falar no famigerado e nunca explicado caso dos Granjinhos).
Esse desaterro, apesar do embargo posterior, destruiu irremediavelmente um
belíssimo palácio romano e outras estruturas arqueológicas certamente relacionadas com a Fonte do
Ídolo que, se conservadas e estudadas, nos poderiam hoje fornecer elementos decisivos para a
interpretação de um monumento único e valorizar aquele sítio arqueológico.
Foram esses os "anos negros" da arqueologia bracarense de que a Câmara Municipal de Braga (e os seus simpatizantes) foi o principal e interessado protagonista.
A nossa memória não é curta nem selectiva...
H. B. NUNES |